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«Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a "sorte grande", haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um "sonho", que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas (...).

Tens pois o privilégio incrível de veres o Sol, as flores, o animais. De ouvires as aves e o vento. E todavia, como esqueces isso tao facilmente. Breve tudo se apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmos dos que souberem, não saberá um dia. Num momento não muito longíquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte. Porque tu és o primeiro e o úlitmo homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso.

Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabolusa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o Universo, um pouco do teu dever de gratidão.»

 

 

 

Vergílio Ferreira, 1992

sinto-me: FELIZ
música: Enquanto a Noite Cai - Xutos e Pontapes
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